MEMÓRIA DOS TEMPOS DE SAIR DOM PEDRO HENRIQUE


13/SET/1909 – 7/JUL/1981


Anibal de Almeida Fernandes, Janeiro, 2017


Um primo meu, pediu-me que relatasse minhas memórias monárquicas ligadas aos bons tempos de SSAAIIRR Pedro Henrique e Dona Maria da Baviera, aos quais tive a agradável honra de conhecer e, esporadicamente frequentar. Para contextualizar eu focarei essa minha experiência mais significativa na memória de 3 encontros, que vamos chamar de Encontros Imperiais, num período de mais de 20 anos de história no Século XX, que também envolve meu primo Marcos Vieira da Cunha e sua mulher Clara, minha querida Clarinha, afilhada de batismo de minha tia Luisa.


ANOS 60: no início de meus 20 anos fui a um vernissage (1967 ou 1968) no Museu da Fundação Álvares Penteado no Pacaembu, São Paulo, pois SAIR Pedro Henrique exibia suas aquarelas e Maria Amélia Arruda Botelho de Souza Aranha suas pinturas. Antes de falar do Casal Imperial faço um registro de memória, pois uma prima minha morava na rua Avaré, ao lado do fundo da enorme casa dos condes Álvares Penteado, no Pacaembú. Para quem não conhece essa região da rua Avaré, há um grande declive entre a rua Ceará, frente da casa dos condes, e a rua Avaré fundo da casa dos condes e frente da casa de minha prima. Pois bem, quando ia à casa de minha prima gostava de ficar no terraço em cima da garagem, pois nesse terraço bastava ultrapassar um muro baixo entre as 2 casas e saltar para chegar ao imenso jardim dos condes, coisa que eu fazia sorrateiramente e, um dia, fui apanhado pela condessa Annie que num arrazoado em francês/português quis saber como eu estava dentro da casa dela, fiquei apavorado, mas quando ela soube quem eu era e de minha aventura aos 12 anos, riu muito e me deixou escalar de novo voltando para o terraço, as 2 casas existem até hoje em dia cito também que, no patamar mais alto do terreno de minha prima havia um pomar/horta que, entre outras delícias, tinha um pé de caqui chocolate, doce como mel, com os frutos sempre envolvidos em sacos de papel, para proteger dos pássaros, cujo sabor nunca mais encontrei em minha vida. Fui a esse vernissage de SAIR em companhia de minha namorada da época e de sua mãe, cuja fazenda de família em São Carlos recebera a visita do casal Imperial, conversávamos em um círculo em torno de Dona Maria, e eu comecei a falar da Fazenda de café de meu avô em Araraquara, ao lado estava outro círculo em torno de Dom Pedro Henrique do qual participava Marcos Vieira da Cunha e sua mulher Clara, quando os 2 ouviram que falávamos sobre Araraquara se interessaram e aproximaram-se de mim trazendo a reboque os demais, inclusive Dom Pedro Henrique, os 2 círculos se fundiram e, num momento, estávamos Marcos, Clara e eu, garimpando nosso passado e nos reencontrando e, Clarinha, descobrindo em mim o neto de Joaquim da fazenda Baguary de Araraquara, para quem o pai de Clarinha, Luiz de Moraes Niemeyer, prestara serviços de advogado já que as famílias se conheciam desde a Vassouras Imperial e Marcos e eu encontrando nosso denominador comum no 1º Barão do Rio das Flores, tio-bisavô de ambos, Clarinha contava que, a convivência das famílias foi tão boa que ao nascer Clarinha, seu pai Luiz convidou minha tia Luisa para batizá-la, eu senti nos dois o carinho e a amizade florescendo, carinho esse, por mim, que perdurou por todo o tempo de vida de Marcos e Clara. Eu estava vibrando com a emoção de estar com o casal Imperial cujas terras eram vizinhas de uma das fazendas do Marcos em Vassouras, onde viviam com simplicidade e os 12 filhos. Desse primeiro encontro guardo comigo minha satisfação de encontrar no casal Imperial a preciosa qualidade de dignidade, classe, educação, aplomb, simpatia, retidão e cordialidade que os envolvia tão naturalmente e se expandia calorosamente para todos, deixando à vontade quem com eles conversava e que serviriam de um forte exemplo para ser apreendido pelos políticos de hoje em dia.


ANOS 80:


1º Episódio 81: O vernissage das aquarelas de SAIR Dom Pedro Henrique, na agência do Banco Itaú, na Av. Brasil, numa 5ª feira, 1º de Abril em 1981, foi a última visita do Imperador (como Marcos e eu chamávamos D. Pedro Henrique de Orleãns e Bragança, quando conversávamos), uma vez que, Dom Pedro Henrique morreu neste mesmo ano. Dom Pedro estava em companhia de SAIR Dona Maria da Baviera. Num momento, D. Pedro Henrique comentava, comigo e Marcos, sua recente estada na Baviera com os primos alemães, ele estava impressionado com o cuidado do estado alemão com as florestas bávaras e como isso poderia ser reproduzido no Brasil, Marcos e eu comentávamos sobre a situação financeira do Brasil e ele, jocosamente, ante minha empolgação, disse que eu poderia ser Ministro da Fazenda. Depois, na conversa com Dona Maria, comentava-se  animadamente a grande repercussão do casamento de sua filha Eleonora com o Príncipe Michel de Ligne, a 10 de Março de 1981, Marcos fora padrinho do casamento, como fora, aliás, padrinho de todos os demais casamentos da Família Imperial. Dona Maria estava impressionada com as reportagens na imprensa carioca sobre os aristocratas que vieram para o casamento, eu comentei que era muito compreensível tal interesse, pois era uma questão obrigatória de respeito e bom senso/bom gosto esse reconhecimento da imprensa, uma vez que o casamento trouxera ao Brasil uma quantidade de nobres da mais pura cepa tanto do lado do noivo, filho de Antoine de Ligne e Alix de Luxemburgo de Ligne e, citei em particular, os Wittelsbach (Casa de Wittelsbach a dinastia da Baviera), família de Dona Maria, que governou a Baviera entre 1323 e 1918, ou seja, desde o fim do Império nao havia uma concentração no Brasil de nobres de tal magnitude, que representavam a mais pura aristocracia da Europa, ela agradeceu, com um brilho faceiro no olhar, meus comentários e elogiou meu conhecimento sobre a nobreza europeia. Tambem cito um detalhe de memória, pois nesse vernissage estavam João de Scantimburgo, presidente da extinta TV Excelsior, que ocupou a cadeira nº 36 da Academia Brasileira de Letras e sua 2ª mulher, a condessa polonesa Anna Teresa Maria Josefina Tekla Edwige Isabella Lubowiecka, cuja reverencia protocolar ao cumprimentar D. Pedro Henrique foi uma preciosidade em seu rigor protocolar e foi muito comentada pela graciosidade e elegância. Outro detalhe interessante, nesse dia inaugurava-se a boate Chez Regine, da Régine Choukroun, a rainha da noite de Paris, que estava agitando São Paulo, cuja sociedade estava mudando pela chegada de um tipo de gente com muito dinheiro novo e alvoroçada para gastar e se exibir na noite paulistana, que viveu sua gloria nessa época, posteriormente Regine foi morar em Paraty onde reabriu sua boate.


2º Episódio 89: 15 de Novembro, 1989, eu apresentei protocolarmente minha filha Ana Tereza (12 anos) a SAIR Maria da Baviera, na festa no Clube São Paulo (atual Iate Clube de Santos), na av. Higienópolis, que fora a casa de Veridiana Valéria da Silva Prado e é uma das mais lindas casas da cidade. Pois bem, usei a festa que lembrava os 100 anos do fim da monarquia para comemorar um fato familiar do qual muito me orgulho, a apresentação formal em 1889 dos recém-casados Joaquim e Bernardina, meus avós, a SMI D. Pedro II no Paço Imperial tendo por padrinhos, conforme exigia o protocolo imperial, os Barões de Muritiba, (que os acompanhariam, meses depois, ao baile da Ilha Fiscal, 9/11/1889, a baronesa era madrinha de crisma de Bernardina, que usou um vestido amarelo de seda de Macau com um colar de esmeraldas, pois as senhoras deveriam no baile usar preferencialmente as cores do Império, esse colar, na época do Encilhamento da republica recém-nascida, ajudou a comprar a fazenda Baguary retro citada). Logo após o sonho acabou, pois os barões de Muritiba acompanharam a Família Imperial no exílio e meus avós Joaquim e Bernardina vieram para o interior de São Paulo na procura do criar um  futuro na terra roxa de Araraquara, ainda mantendo a função de mais de 100 anos da Família, produzir café na fazenda Baguary. Na festa, o Alexandre do movimento Pró-Monarquia, a quem comuniquei minha intenção de apresentar minha filha à Imperatriz viúva, concordou com meu pleito e encampou a ideia e coordenou com os demais o ritual da apresentação de Ana Tereza e, num momento da festa, estava Dona Maria, hierática e magnífica, sentada numa cadeira quando se fez uma aleia entre as pessoas e minha filha com o encanto e frescor de seus 12 anos, entrou com um ramo de flores, caminhou até a Imperatriz e, à sua frente, fez uma graciosa reverencia (treinada em sua aula de balé) ao perceber a reverencia de minha filha a Imperatriz sorriu e com os olhos marejados a abraçou e beijou quando recebeu as flores, eu também fiquei bastante comovido com a grande força simbólica do histórico acontecimento com 100 anos de continuidade, pois foi mais um momento na convivência do meu sangue com os Bragança, completando meus anos de Brasil desde que meu 12ºavô Balthazar de Moraes de Antas aqui chegou em 1556 e continuou com meu 4ºavô João Gualberto de Carvalho, 1º Barão de Cajurú em 1860. Conversando, posteriormente, com a Imperatriz recordamos D. Pedro Henrique, Marcos e Clarinha de quem ela falava com muito carinho, os vernissages, enfim toda aquela época passada que tínhamos vivido trazendo com a vibração da memória para o presente, foi nesta festa tão significativa para mim a ultima conversa que tive com a Imperatriz, um fecho de ouro, pois a partir daí apenas trocamos algumas felicitações de Natal.


 


 
















 
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Genealogia e Historia = Autor Anibal de Almeida Fernandes