FORTUNA de Eufrásia (Correa e Castro) Teixeira Leite


Aníbal Almeida Fernandes, Fev/10, atualizado Out/15.

 


Busto de Eufrásia Teixeira Leite, (*1850 +1930), no jardim do Hospital construído em 1941 com sua herança, onde há a seguinte inscrição: Grande benemérita da Santa Casa de Misericórdia de Vassouras, a eterna gratidão do povo de Vassouras.



Óleo de Lawlis Duray, 1887, França – Museu Casa da Hera



Eufrázia é muito mais do que uma mulher lembrada apenas por sua conturbada relação com Joaquim Nabuco, que estava mais interessado em sua carreira política e precisava arranjar quem a financiasse uma vez que não tinha fortuna própria. Eufrásia foi uma mulher, instruída, independente, dinâmica, muito avançada para o seu tempo, após a morte dos pais foi para Paris em 1873 onde viveu por mais de 50 anos, residindo depois de 1884, com a irmã, em um hôtel particulier de cinco andares, na rue Bassano 40, 8º arrondissement, nos Champs Elysées, próximo ao Arco do Triunfo, endereço sofisticado até nos dias atuais.


 Hôtel particulier de cinco andares, na rue Bassano, 40

Em Paris tinha status de membro da alta sociedade parisiense, vestindo-se com Worth, o famoso costureiro que é citado por Marcel Proust em sua monumental obra, tinha um excelente faro para negócios e multiplicou várias vezes a fortuna herdada, como a 1º bem sucedida mulher home broker do sec. XIX na Bolsa de Paris, (consta ter sido a primeira mulher a entrar no recinto da Bolsa de Valores de Paris).

Eufrásia integrou o círculo das amizades mais próximas da Princesa Isabel, quando a princesa foi para o exílio na França.

Eufrásia retornou definitivamente para o Brasil em 1928 e passou temporadas na Casa da Hera em Vassouras. Mantinha-se quase como reclusa, tanto que até comprou, em 1924, a chácara do Dr. Calvet, ao lado da chácara da Hera, apenas para manter longe os vizinhos.

Eufrásia viveu seus últimos anos no Rio de Janeiro em um apartamento em Copacabana, cercada de empregados fiéis, excêntrica e solitária. Queria retornar para Paris, mas tinha problemas renais que a impediram de viajar.

Ela morreu solteira em 1930 no Rio de Janeiro, e deixou a imensa fortuna que tinha um valor estimado em 37 bilhões de réis, (portanto 37.000 contos de réis, mesmo depois da Revolução russa e logo após a Crise de 29 que arrasou as fortunas mundo afora) o que poderia comprar 1.850 quilos de ouro na época. A maior parte eram ações de 297 empresas em dez países diferentes, (Inglaterra, Alemanha, França, Bélgica, USA, Chile, Canadá, Mônaco, Egito, Rússia), além de títulos de dívidas de governos. Partes menores eram a bela casa em Paris (que na época valia 2 milhões de francos e, atualmente, valeria mais de 10 milhões de euros) e um loteamento de 49 terrenos na atual rua Pompeu Loureiro em plena época de crescimento imobiliário de Copacabana. O menos valioso dos bens imóveis legados foi provavelmente a Casa da Hera, com seus móveis, decoração e utensílios domésticos, avaliada em 96:700$000 (noventa e seis contos e setecentos mil réis), cuja área tinha sido aumentada com a compra da chácara do Dr. Calvet, avaliada em 44:050$000 (quarenta e quatro contos e cinquenta mil réis).

Origem do dinheiro: O pai de Eufrázia, Joaquim José Teixeira Leite, advogado, era o principal financista de Vassouras e presidente da filial aberta em Vassouras, em 1859, do Banco Commercial e Agrícola, com os 2 irmãos João Evangelista e Francisco José, todos os 3 vindos de Minas em 1820, Joaquim José financiava a aristocracia rural dos fazendeiros de café, pois eles tiveram a visão de sair da plantação do café e, muito ricos, davam créditos aos fazendeiros e também eram comissionários no Rio de Janeiro do café da região de Vasouras/Valença. Tinham uma grande visão empresarial e foram incentivadores da construção da estrada de ferro Pedro II, (chegaram a preparar um projeto para a ferrovia) que impulsionou a economia vassourense para o seu ápice nos anos 50 a 70 do séc. XIX.

Eufrásia e sua irmã, herdaram, em 1872, com a morte de seus pais, a fortuna de 767:937$876 réis (767 contos, novecentos e trinta e sete mil, oitocentos e setenta e seis réis), o que equivalia na época à dotação pessoal do imperador D. Pedro II ou a 5% das exportações brasileiras. Logo depois, em 1873, morreu sua avó, a baronesa de Campo Belo, e as irmãs receberam mais 106:848$886 (cento e seis contos, oitocentos e quarenta e oito mil e oitocentos e oitenta e seis réis) que lhes cabia como parte da herança, na forma de títulos, débito bancário e escravos, que logo foram vendidos.

Sua irmã, Francisca Bernardina, tinha uma séria deformação na bacia e morreu em 1899, em Paris, sem ter casado. Assim, Eufrásia herdou também a fortuna da irmã.

Conto de réis é uma expressão adotada no Brasil e em Portugal para indicar um milhão de réis. Sendo que um conto de réis correspondia a mil vezes a importância de um mil-réis que era a divisionária, grafando-se o conto por Rs 1:000$000.

Herdeiros: Em detrimento de sua família Correa e Castro Teixeira Leite, os principais herdeiros de Eufrásia foram a Santa Casa de Misericórdia de Vassouras, o Instituto das Missionárias do Sagrado Coração e o Colégio Salesiano de Santa Rosa de Niterói. Os dois últimos deveriam fundar dois colégios para meninas e meninos pobres, cada um mantendo cinqüenta órfãs e órfãos, e outros estudantes pagantes. O Colégio Salesiano de Santa Rosa de Niterói recusou a incumbência e sua parte, conforme o testamento, foi passada para a Santa Casa de Misericórdia de Vassouras. Em 1941 foi construído um Hospital com o nome de Eufrásia em Vassouras.

Briga pela herança: O testamento foi contestado judicialmente pelas primas Umbelina Teixeira Leite dos Santos Silva, baronesa de São Geraldo, Cristina Teixeira Leite d’Escragnolle Taunay, viscondessa de Taunay, e Francisca Teixeira Leite Brhuns. A elas juntaram-se outros primos do lado paterno de Eufrásia, representados por advogados que também eram da família Teixeira Leite. Os herdeiros da família Teixeira Leite foram judicialmente derrotados pelos inventariantes, os irmãos Antonio José e Raul Fernandes, (primos de Anibal), que foi Embaixador na Bélgica e 2 vezes Ministro das Relações Exteriores do Brasil (no o governo de Eurico Gaspar Dutra, 1946-1951 e, novamente, no governo de João Café Filho, 1954-1955). Esses 2 irmãos de Vassouras, foram os advogados de Eufrásia em um confronto que durou seis anos.

Em agosto de 1937, quando os herdeiros deserdados da família Teixeira Leite tentaram reabrir o processo judicial de impugnação do testamento, a população de Vassouras revoltou-se, fechou o comércio, cercou o fórum durante as audiências e ameaçou os advogados. Com a sentença a favor de Vassouras o povo comemorou nas ruas a decisão.

ADENDO: Laureano Correa e Castro, barão de Campo Belo a 2/12/1854, avô de Eufrásia Teixeira Leite, c.c. sua sobinha Eufrásia Correa e Castro Andrade (1ª Eufrásia), é pai de 2 filhas, uma filha é a mãe de Eufrásia (2ª Eufrásia) e a outra filha é casada com Marcelino José de Avellar e Almeida, tio de Eufrásia e tio 3º-avô de Anibal.

Fontes pesquisadas para estruturar esse trabalho:

# E o Vale era o escravo, Eduardo Salles, Civilização Brasileira, 2008.

# O Vale do Paraíba e a arquitetura do Café, Augusto C. da Silva Telles, Capivara, 2006.

# Barões e escravos do café Sonia Sant’Anna, 2001, pgs: 35 a 38 e 160.

# Braga, Greenhalg H. Faria, Vassouras de Ontem, Rio de Janeiro, 1975 e De Vassouras, História, Fatos Gente, Rio de Janeiro, 1978.

# Ferreira, Luís Damasceno, História de Valença, Rio de Janeiro, 1925, pg. 79.

# Raposo, Ignácio, História de Vassouras, Niterói, 1978.

# Legado, nº 13, 2010, publicação Letras e Lucros.

#VASSOURAS a Brazilian Coffee County, 1850-1900, StanleyStein, Harvard University, 1957: retrata de maneira clara e objetiva o começo, formação e início da decadência de Vassouras, quando terminam as matas virgens para derrubar e plantar e a rotina míope dos vassourenses que não adubam ou cuidam de proteger a terra onde plantam; e eu nunca tinha lido sobre a confusão e decadência que causou a implantação da estrada de ferro (D. Pedro II) para as vendas e comércio da estrada de terra (Estrada da Polícia). Também me impressionou a mudança das tropas de mulas (cada uma com 9 arroubas) que custavam 33%!!!!!!!!! do que valia o café para transportá-lo até o Rio e quando chega o trem que facilita tudo e fica rei o carro de boi que carregava 100 arroubas até as estações e derruba o custo do transporte e a perda de café e mulas nos constantes acidentes anteriores e Vassouras fica riquíssima e muito sofisticada no seu modo de vida.

Pgs 17 a 21e 120 > Teixeira Leite família de financistas.

Pg 226 os escravos entre 1857-58 valem 73% do valor da fazenda.

Pg 246 em 1882 o escravo é o que vale nas fazendas, pois tem liquidez e as terras estão exauridas.

Pg 247 as propriedades em 1888 desvalorizam 10 vezes em relação a 1860 e o escravo tem valor zero na composição do valor das fazendas, por conta da Lei Áurea de 1888.

Pg 251 estima m 500.000 escravos libertos em maio/1888.

pg 260 estima em 500 mil contos de réis a necessidade de dinheiro.

Pg 293

em 1825 > 1US$ dolar = 1 conto de reis e passa a equivaler em:

1850 > 0,58US$ dólar = 0,58 conto de reis

1900 > 0,19US$ dólar = 0,19 conto de reis

Pg 294 estima em 17.319.556 hab. a população do Brasil em 1900

Pg 295 estima em 1887 > a existência de 637.602 escravos.

WIKIPÉDIA: Eufrázia Teixeira Leite

Alberto de Mello Affonso, meu primo (94 anos), conhecido pessoal e fonte primária.

 

 
















 
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Genealogia e Historia = Autor Anibal de Almeida Fernandes